Erros e acertos da profissão no currículo de formação de docentes nos EUA

Por Lia Glaz, Gerente de Projetos do Instituto Península

Ao olharmos resultados positivos de Educação em todo o mundo, encontramos um ponto em comum: professores que tiveram uma formação inicial completa, na qual a teoria e a prática conversam, fazem a diferença na sala de aula e no desempenho dos estudantes. A docência, assim como várias outras profissões, é um ofício de aprendizado constante, e requer esse mesmo cuidado com a formação continuada, apoiando o professor para que ele tenha o domínio das melhores estratégias para mediar o que vivencia no cotidiano. Segundo Linda Darling-Hammond, a partir de expectativas que as escolas de hoje têm sobre seus alunos, “ensinar a resolver problemas, criar e aplicar o conhecimento requer professores com conhecimentos profundos e flexíveis do conteúdo, que saibam que representar ideias de forma poderosa pode significar um processo produtivo de aprendizado para alunos que começam o ano escolar com diferentes níveis e tipos de conhecimento prévios. Professores que sejam capazes de avaliar como e o que os alunos estão aprendendo, e adaptar sua instrução a diferentes práticas de ensino”.

Apesar de ser o primeiro passo para que o ensino chegue aos alunos com qualidade, a formação inicial de docentes que integre teoria e prática ainda não é realidade em todas as faculdades brasileiras. Com o objetivo de conhecer experiências que deram certo para tentar influenciar iniciativas em nosso País, nós do Instituto Península fomos até os EUA para um workshop do Teaching Works. A organização, hospedada na Escola de Educação da Universidade de Michigan, realiza projetos com educadores, instituições de ensino e governos e disponibiliza todos os materiais, aprendizados e metodologias para download gratuito em sua plataforma. Durante dois dias, conhecemos e testamos as pedagogias utilizadas na formação de docentes para entender como são dadas suas aplicações tanto nos cursos de graduação quanto da escola.

O principal aprendizado desta vivência foi a importância da quebra de paradigmas. Muitas vezes, a própria sociedade exclui a criança que tem mais dificuldade em aprender e o professor tem um papel valioso de tentar mudar esta realidade. Na Universidade de Michigan, o currículo é voltado para a formação de “skillful teachers”, ou seja, profissionais comprometidos que são capazes de garantir que todos os seus alunos aprendam, independentemente da classe e do ambiente em que estão inseridos, fazendo valer a justiça social que lhes é de direito. A pesquisadora e professora da Escola de Educação da Universidade de Michigan, Deborah Ball, que dirige o Teaching Works e foi presidente da American Educational Research Association, aponta que, para atingir o resultado esperado quando estiver em contato com diferentes perfis, o docente precisa de ferramentas específicas que o ajudarão a fazer uma leitura sobre cada um de seus alunos, o contexto em que estão inseridos, como interagem e qual a melhor forma de avaliá-los para que floresçam.

Ficou claro no workshop que, para que esse objetivo se concretize, é na faculdade que esse profissional deve ter o primeiro contato com as ferramentas que serão úteis na prática. É o que o método do Teaching Works propõe aos alunos da Universidade de Michigan e de outras instituições de ensino parceiras, por meio de estratégias de simulação de episódios reais e estudos de caso, antes de encaminhá-los para o estágio. A partir desses programas de introdução ao ensino prático, os alunos são incentivados a pensarem em como agir diante de uma situação apresentada em vídeo ou criar cenários em que são colocados no lugar de estudantes e professores para que tracem estratégias a serem seguidas e qual a avaliação que deve ser feita.

O que nos chama a atenção é que essas ferramentas de evidências não são perfeitas, mas, mesmo assim, são compartilhadas para que sejam propostos caminhos para a criação de novos projetos pedagógicos. A universidade e a prática também são exercícios constantes de aprendizado. Ao propor uma mudança em um modelo educacional que já não fazia mais sentido, os professores americanos mostram a importância de olhar para a profissionalização da carreira, eliminando de vez o conceito de que um professor nasce com um dom e, assim, é oferecido já na graduação o contato com a vida real do docente. 

Todo esse trabalho visa preparar o professor para chegar na escola com uma “caixa de ferramentas” que permita que ele, abastecido com um repertório amplo de técnicas, faça uso de seu poder discricionário para levar o aprendizado aos seus alunos. É essa decisão, de incluir a todos, se desprendendo de pré-julgamentos individuais, que faz o docente promover a justiça social na sala de aula e atender as mais diversas demandas. Nesse momento, o planejamento também se faz importante: com uma proposta pedagógica bem estruturada, o professor tem segurança sobre sua metodologia e sobre como aplicá-la com a turma, não precisando improvisar diante das reações que ela poderá desencadear. Em um momento de dúvida ou quando o comportamento da sala mudar, ele busca a ferramenta adequada dentro de seu repertório.   

Em Michigan, essa iniciativa já mostra resultados positivos fora da universidade. Um exemplo é o Michigan Program Network, que reúne várias instituições de ensino para o compartilhamento de práticas que deram certo, errado ou que ainda não foram avaliadas. Por meio de workshops aos sábados, professores trabalham por uma causa que não é exclusiva de uma faculdade, mas uma colaboração visando aprimorar a formação de professores e a Educação, o que tem chamado a atenção, inclusive, de docentes mais conservadores aos métodos de ensino que vão além da transmissão do conhecimento.

Mas será que poderíamos ver ações semelhantes acontecendo aqui no Brasil? A lição que nossa vivência em Michigan nos ensinou é que não existem respostas sem tentativas. Mais do que errar e acertar, é incentivando as universidades a colocarem a prática em prática na formação de professores que saberemos do que somos capazes e como podemos ir além por melhorias em nosso País que também poderão ser compartilhadas mundo afora.

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